domingo, 25 de dezembro de 2016

Natal entre Brasileiros

Peru e Farofa
Eu me esforcei, mas nunca me acostumei a passar as datas comemorativas longe da família e amigos. Tantos anos trabalhando no deserto, deixava tudo pra comemorar depois. Quantas datas eu acumulava e comemorava tudo junto de uma vez quando ia ao Brasil por exemplo. O natal já comemorei em novembro, aniversário em junho, o ovo da páscoa chegou em julho!


Hoje dou bastante valor quando consigo aproveitar um dia importante.
Salpicão e Arroz
Sempre gostei de comemorar meu aniversário, uma desculpa pra comer tudo o que tiver com vontade e encontrar os amigos. Há gente que não gosta de comemorar, mas eu acho muito legal considerar um dia mais importante que o outro pra dar mais cor à vida. 

Natal então, sempre uma data feliz, encontro com a família e bagunça com as crianças.

Não programei nada pra este Natal, pois a família do marido não comemora. Estava começando a ficar jururu.
Natal à Brasileira
Mas uma brasileira ao saber que estávamos sem programa no Natal, nos convidou de última hora para a ceia. Passamos o Natal bem à brasileira, com direito a peru, farofa, amigo oculto e discursos.

Um discurso me emocionou bastante até por ser bem parecido com o que eu passo desde 2011. Um brasileiro disse que esse era o segundo natal em 10 anos que passava junto ao filho, pois ele trabalha fora do Brasil há muitos anos.

Aniversário de Casamento
Esse deve ter sido o quinto natal que passo longe da minha mãe. Dessa vez pelo menos passei ao lado do marido e os novos amigos. Os brasileiros em Bahrain que são a nossa família longe do Brasil. 

Eu e meu marido voltamos bem felizes pra casa, pois a véspera de Natal também é nosso aniversário de casamento! E pela primeira vez estávamos juntos e aproveitamos bastante o dia desde o café da manhã até a ceia!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mudança de Carreira

Saí do meu emprego de engenheira de campo por muitas razões. Pelo trabalho ser super exaustivo e remoto, sem oportunidades de transferência, falta de plano de carreira pra sair do campo, restrições de onde posso residir, etc.

Mas acho que a maior razão de todas é que eu não consigo fazer algo só pelo dinheiro. Preciso de uma motivação maior. Motivo pra acordar todos os dias e trabalhar sorrindo. 

Não posso negar que tive uma experiência e tanto naquele trabalho. Saí do Brasil de peito aberto para o que der e vier. E tenho que admitir que estava sorrindo a maior parte desses 6 anos. Soube olhar para o lado positivo em todos os momentos, mas acho que saí no momento certo.

Essa semana fui ajudar meu cunhado com uma tarefa da faculdade dele e me lembrei da sensação gratificante que é ensinar alguém. Minha sogra e cunhada até comentaram que nunca viram alguém ensinar uma dever de casa tão feliz.

Foi aí que caiu a minha ficha. É isso que eu posso fazer pra me ocupar! Ensinar em Bahrain!

Na escola, ensinava matemática pra amigas da escola. Na faculdade, organizava grupos de estudo pra todos aprenderem juntos. Em Abu Dhabi, no treinamento da engenharia de campo ajudava o pessoal que tinha um pouco de dificuldade a passar nas atividades práticas e teóricas. No Oman eu tinha sempre uns trainees debaixo da minha asa. E até aqui em Bahrain tentei ajudar umas amigas a escrever em árabe.

Coloquei isso na minha cabeça e ponto final. Comentei com as minhas amigas, fiz um cartão de visitas e divulguei entre as brasileiras. Encontrei uma professora que tem uma empresa de professores particulares. Ela faz toda a divulgação pra gente, arruma os alunos e ainda ouve as reclamações dos pais. 

Já comecei dando aulas particulares de física e matemática pra alunos de escola e faculdade. Ainda estou indecisa se quero investir nisso ou apenas como quebra galho.
Adoro engenharia e gostaria muito de continuar trabalhando com isso. Mas nesse meio tempo quem sabe consigo inspirar mais meninas a se aventurar pelas carreiras de exatas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Uma viagem até Dubai

Minha cunhada está morando temporariamente em Dubai e resolvemos visitá-la. Sempre vale a pena uma acomodação de graça na cada dos amigos, ou melhor, uma desculpa pra viajar...

A idéia da viagem foi da mãe do meu marido e eu me ofereci a acompanhá-la.
Aluguei um carro no aeroporto de Dubai com antecedência e também contratei o serviço de roaming da minha operadora de Bahrain pra usar o GPS do celular por lá. A localização do hotel já estava gravada e chegamos em 20 minutos pelo caminho mais curto e sem trânsito (usando o famoso google maps).

Minha sogra adorou o meu serviço de "concierge", disse que eu era super independente e organizada pra viajar. Adquiri muita prática viajando quase todos os meses dos 6 anos anteriores da minha vida! Na verdade desde que me mudei permanentemente pra Bahrain já estava começando a sentir falta de viajar...

A viagem foi ótima, tirando o fato que eu tive dor na coluna depois de carregar umas sacolas. Comemos em bons restaurantes, passeamos pelo Dragon Mart e pela avenida Sheikh Zayed. O clima estava ótimo e passeamos bastante a pé.

Meu programa favorito é assistir a dança das águas no chafariz do Dubai Mall (Dubai Fountain). Acho que este é o único programa gratuito em Dubai...
Desta vez sentamos em um restaurante para comer uns petiscos e bater papo furado. Com isso conseguimos assistir o show das águas umas 4 vezes, pois se repete a cada meia hora.

Viajar é sempre bom, mas voltar pra casa é melhor ainda!


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Bikini ou Burkini?

No início eu achava que a palavra "burkini" era uma brincadeira, uma mistura de Burqa e bikini.
Mas esse termo não só existe, como é uma marca registrada australiana para o termo genérico "roupa de banho modesta islâmica".
Pra mim eu achei bem parecido com um traje de mergulho mais moderno com saia.

Toquei nesse assunto porque resolvemos nos aventurar pelas praias públicas de Bahrain.
A maioria das praias são privadas dentro de hotéis ou resorts. Em alguns hotéis é possível passar o dia na praia pagando uma taxa de 5 a 8 dinares (~40 a 70 reais!) para entrar.

Praia de Marassi
Chegamos na praia de Marassi e tomamos banho de mar usando roupas (calça de lycra e camisa dry-fit ou neoprene). Ninguém usa bikini como nas nossas praias. Nem sunga é comum, os homens estavam usando shorts ou apenas cuecas!
Não achei muito confortável mergulhar de roupa, mas sempre existe um ponto positivo. Por exemplo eu não precisei ficar me perguntando se o bikini está tapando tudo depois de movimentos bruscos...

Levamos sanduíches, salgadinhos, água de côco para lanchinho e cadeiras para sentar. Pois a estrutura de serviços à beira da praia também não é tão boa quanto a nossa (inexistente).

Claro que é muito diferente do que ir à praia no Brasil, mas gostamos da experiência. Vamos explorar mais e melhorar nossa farofa com barraca, mais cadeiras, mais lanchinhos e música.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Uma viagem vapt-vupt até o Oman

Minha amiga Ellen precisava ir rapidinho até o Omã e voltar pra Bahrain pra renovar seu visto. Ela poderia ir em um voo e voltar no seguinte, sem nem mesmo sair do aeroporto.
Mas eu pensei que poderíamos aproveitar essa oportunidade e passear em Muscat juntas nesse dia.

Achamos passagem de ida-e-volta (a distância é a mesma que Rio-São Paulo), alugamos um carro econômico e preparamos um roteiro bom, bonito e barato.

Eu e Ellen no Porto
Saímos de Bahrain de manhã, deixamos o carro no aeroporto no estacionamento de longa duração, que custava 2 dinares por dia. Tomamos um café no aeroporto com um bolo caseiro (que a Ellen mesmo fez) enquanto esperávamos o avião. Esse avião que por sinal atrasou bastante e nos fez trocar de portão de embarque umas 2 vezes.

Pão Pequenino
Chegamos no Omã na hora do almoço e a sugestão foi comer peixe na Turkish House, um restaurante de frutos do mar. Esse restaurante serve um pão gigante maravilhoso com gergelim feito na hora e peixes deliciosos. Pedimos um Hammour grelhado, um peixe suculento e nobre dessa região do golfo. Comemos quase até explodir...


Hotel Shangri-la
Passeamos pelo Mutrah Souq, o mercado típico de Muscat próximo ao Porto, que pode ser comparado a uma Rua da Alfândega com uma linda decoração árabe e mercadorias típicas. 
Muito bom pra comprar souvenirs e principalmente a mirra, um dos melhores incensos do mundo (da árvore Olíbano), com preços ótimos. Sempre compro um pacotinho de presente para a minha mãe.

A próxima parada foi o Shangri-lá, um hotel cinco estrelas que fica um pouco mais afastado do centro, ao lado de lindas montanhas e também à beira do mar. Vimos o pôr do sol e sentamos em um café para tomar um chá marroquino (ou uma dose dupla de cerveja).

Hora do chá
Depois de admirar as montanhas e costa de Muscat, já não tínhamos muito tempo até a hora do voo então resolvemos fazer uma boquinha no City Centre Seeb, um shopping ao lado do aeroporto. 

Depois de devolver o carro, a viagem já estava quase no fim. 

Durante a viagem lembrei de todos os anos que eu trabalhei no Omã, muitas lembranças boas e até algumas ruins. Muitas experiências e oportunidades que tive e aproveitei. 
O lugar onde conheci o Ahmed e lugares onde fiz muitos amigos. Foi um momento de nostalgia. Nem parece que só fazem 4 meses que saí de lá.
Foi ótimo poder ser uma companhia numa viagem tão rápida, mas ao mesmo tempo tão importante para nós duas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Eid Al Adha

Café da manhã típico
Pra celebrar o feriado do Eid Al Adha, a família do Ahmed sugeriu passarmos o dia numa casa com piscina desde o café da manhã até o entardecer.

Alugamos uma casa com piscina por 12h, levamos comidas típicas de café da manhã, chá, café árabe, café preto, copos plásticos, etc... Poderia dizer que era um piquenique em casa!
Dentre as comidas típicas eu gosto muito dos salgadinhos com queijo e zátar. Definitivamente não gosto de "balaleet" um macarrão doce de açafrão com um ovo frito em cima pra completar! Existe gosto pra tudo, pois as minhas cunhadas adoram...
Uma piscina só pra gente!

Aproveitamos a manhã na piscina, nadando e jogando bola, ou apenas relaxando e ouvindo música pois a temperatura da água estava ótima! 

Eu fui com bikini, mas percebi que não é hábito usar bikini por aqui. Então minha cunhada me emprestou uma saída de praia de um material leve que eu usei por cima pra entrar na piscina. Foi até bom, pois estava mais discreta e não precisava me preocupar com gordurinhas na hora de sentar...
Almoço tamanho família

Na hora do almoço encomendamos arroz com frango e salada de um restaurante do bairro, pois não ia dar tempo de cozinhar pra tantas bocas!
Depois do almoço rolou a rodada de Sheesha (ou narguilhê) na beira da piscina. Não gosto muito quando as pessoas fumam em lugares fechados pois fica sufocante, mas em lugares abertos não me incomodo com a fumaça mais dispersa.

Levei meu café brasileiro, garrafa térmica e filtro pra fazer na hora. Meu café fez muito sucesso!

Quando o sol já estava mais brando, começamos a jogar volley na quadra. Acho que foi a primeira vez no ano que eu estive em contato com o sol. Inventamos um monte de regras pro jogo ficar mais dinâmico e porque a bola era muito leve...

Depois de um dia cheio de comilança e atividades, chegamos em casa mortos de cansados. Um ótimo dia em família.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um Churrasco Brasileiro em Bahrain

Primeiro Café da Manhã
Depois que descobri a comunidade Brasileira aqui em Bahrain, minha vida social melhorou muito.
Antes eu só conhecia a família do marido e não tinha muitos contatos. 

O grupo de brasileiros sempre organiza encontros, meu primeiro foi em um café da manhã com as brasileiras no Paul, um ótimo restaurante francês. Conheci algumas brasileiras pessoalmente que antes só falava pelo whatsapp.
Neste dia começamos a organização um churrasco na casa de uma brasileira no final de semana seguinte. A idéia era cada um levasse um pouco de carne ou bebida, pra não ficar pesado pra ninguém.

Lugar lindo
No dia do churrasco, eu e Ahmed levamos umas cervejinhas, refrigerantes e gelo. A Ellen levou Seabass, um peixe bem gostoso daqui da região do golfo, já temperado para grelhar. Outros levaram carnes brasileiras e até linguiças de porco. Estava bem farto o churrasco e os gauchos estavam no comando da churrasqueira (só pra ter idéia da qualidade).

Ahmed se enturmou bem e aproveitou pra tirar onda com seu português, usou todas as palavras possíveis do vocabulário dele. Acho que conseguiu impressionar alguns brasileiros!
Em Bahrain?
O churrasco foi muito animado, muita música brasileira, muita fartura e muita gargalhada.
Ahmed disse que parecia que não estávamos em Bahrain!

Foi ótimo estar rodeada de brasileiros, poder conversar na nossa língua, rir das piadas bobas, saber que nunca estamos sozinhos pelo mundo.

domingo, 28 de agosto de 2016

Muitas Brasileiras em Bahrain!

Eu, bobinha, achava que era uma das únicas brasileiras em Bahrain. Depois de vasculhar um pouco na internet, achamos o telefone da Ellen no facebook.
Ela colocou o telefone dela disponível pra dar apoio a uma brasileira que estava se mudando de Minas Gerais pra Bahrain. Ligamos assim que achamos o telefone na internet e já marcamos um café no Souq (mercado) de Manama.

Fui com a minha mãe e logo nos identificamos com ela. Quem diria, conversa vai e conversa vem, descobri que a comunidade brasileira é bem grande em Bahrain! Mais de 100 brasileiros, de todos os Estados e exercendo as mais diversas profissões.

Ela me inseriu no grupo das brasileiras, só no whatsapp são quase 50 mulheres,  e já me enturmou no grupo. Ela é casada com um Egípcio, mora em Bahrain há menos de um ano, é de Manaus ("Mãnaus" como se fala por lá).
Estamos sempre nos divertimos apontando as diferenças entre os sotaques do Rio e Amazonas!
Sempre lembro do Ahmed falando "bãnana" com o nariz tapado pra copiar a Irene, cuja família é do Maranhão.

Percebi que o povo brasileiro é bem solidário e todas estão sempre tentando se ajudar. Quase toda semana são organizados eventos, como um café da manhã, almoço ou churrasco. Tenho a impressão que só nos encontramos pra comer... Já engordei alguns quilos.

Resumindo, fiz uma nova amizade e Bahrain já ficou mais colorido.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Um Carioca na Islândia

Este post é em homenagem ao meu irmão que fez intercâmbio em Budapeste e viajou a Europa quase inteira.
Ele escreveu uma parte da aventura, uma viagem à Islândia pra ver a Aurora Boreal.
 (Clique aqui pra ler a aventura).
As fotos são de tirar o fôlego! O relato é divertido e cheio de dicas econômicas pra viagens, vale a pela ler!


terça-feira, 26 de julho de 2016

Empregadas domésticas no mundo

Estou morando fora do Brasil há quase 6 anos, passei por Índia, Emirados Árabes, Qatar, Oman e Bahrain. Tive a oportunidade de trabalhar com pessoas de diversas culturas, etnias, religiões, etc. Sempre tentei abrir mais a minha mente, para aprender a respeitar melhor as diferenças.

Os nativos dos países do Golfo (EAU, Qatar, Oman, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrain) em sua maioria não realizam trabalhos de baixa remuneração e contratam estrangeiros de países mais pobres para fazer isso. Estrangeiros de países mais pobres aceitam os empregos por falta de oportunidades em seus países de origem e a possibilidade de ajudar suas famílias trabalhando no exterior. 
Contratam indianos, paquistaneses, filipinos, tailandeses, indonésios, entre outros, pra serem empregados domésticos, operários de construção civil, manicures, etc.

Até aí tudo bem, eu também aceitei um emprego fora do meu país como uma oportunidade melhor que no Brasil... Qual a diferença então? A diferença está nos contratos de trabalho que nem sempre favorecem o trabalhador, nas condições em que eles trabalham e moram, algumas vezes o empregador tem a posse do passaporte do trabalhador (!). 
Pra mim a diferença também está no tratamento que essas pessoas recebem dos seus patrões e no direito de ir e vir. 

As empregadas domésticas normalmente tem um contrato de 2 anos, a passagem de ida e volta ao país de origem é coberta, mas não necessariamente tem dias de folga. Moram na casa da família, normalmente em um quarto/casa separado. Imagina trabalhar 2 anos sem um dia de descanso. E durante esses 2 anos receber um tratamento desrespeitoso de uma família inteira. Reclamar pra agência de emprego também não resolve, pois o patrão tem sempre razão. A solução é aceitar calada os dois anos passarem e nesse meio tempo ajudar a família se possível.

Tirando o fato de estar em um país diferente, essa foi (ou ainda é) a realidade de muitas no Brasil. Se trocarmos a palavra "país" nesse texto pra "estados" podemos fazer um paralelo "sudeste" e "nordeste" ou até "cidade grande" e "subúrbios".

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Escolhas da vida

Uma difícil escolha que eu tive aos 22 anos foi aceitar um emprego na Índia.
Escolhi porque era um desafio, uma mudança e uma oportunidade de conhecer o mundo.

Vou falar um pouco sobre algumas escolhas. Até as que eu não me lembro. Por exemplo,  minha mãe sempre conta que no primeiro dia que ela me levou na creche, eu entrei toda independente sem olhar pra trás (eu tinha uns 2 anos eu acho).

Quando eu tinha 10 anos passei no concurso do colégio Pedro II. Meus pais me deram a escolha, eu poderia continuar no colégio particular que eu estudava ou mudar para o público. Escolhi mudar.

Quando estava fazendo estágio na faculdade, estava me sentindo presa e sem futuro por lá. Escolhi sair do estágio e viajar pela Europa nas férias antes de me formar.

Comecei o mestrado e não estava satisfeita. Escolhi sair. (aí que entrou a escolha da Índia).

Passei no concurso de Furnas, mas naquele momento estava muito animada trabalhando mundo afora. Escolhi passar a oportunidade para o próximo candidato.

Encontrei uma pessoa que puxou o meu tapete e me deixou no ar. Escolhi casar.

Esse ano resolvi questionar o meu atual emprego. Escolhi sair.

Olhando pra todas aquelas escolhas, não me arrependo de nenhuma delas (exceto da creche, pois poderia ter dado um tchauzinho pra mamãe).

Não acho que vou me arrepender de deixar meu emprego. Posso escrever depois sobre as razões que me levaram a isso.

A liberdade de ter nossas próprias escolhas. Isso eu acho muito importante, pois ficar em cima do muro sempre tira mais energias.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

25 fatos sobre mim

Vou tentar falar 25 coisas sobre mim tb:

1. Minha memória mais antiga da vida é do meu aniversário de 2 anos, um teatro de fantoche dos 3 porquinhos. Eu chorando muito, não por medo do lobo mas por empatia pelos pobres porquinhos pendendo suas casas.
2. Por falar em medo, tenho medo de ondas do mar.
3. Adoro falar sobre meu pai, uma pena que as pessoas não entendem que me traz mais alegria que tristeza.
4. Queria ser médica até uns 10 anos de idade .Cortei o meu dedo e desmaiei na sala ao ver sangue. Meu irmão até hoje lembra que teve que limpar o meu "pedaço de dedo" do chão.
5. Depois de desistir de ser médica, decidi ser engenheira.
6. Não gostava muito de bonecas. Gostava mais de bichinhos de pelúcia, Star wars, Lego, Pokemon e Cavaleiros do zodíaco.
7. Por falar em Lego, gostava tanto de montar quanto de organizar as pecinhas depois de brincar.
8. Adoro quebra-cabeças. Meus favoritos são os 3D.
9. Gosto de livros de colorir
10. Eu era/sou muito tímida. Tenho problemas sérios quando meu rosto fica vermelho.
11. Fico vermelha quando fico brava também.
12. Sou engenheira, e não uma calculadora. Não sei fazer contas de cabeça.
13. Gosto de usar rabo de cavalo e trança. Qualquer coisa diferente me deixa desconfortável.
14. Gosto muito de estudar e aprender coisas novas. Sempre fui "nerd".
15. Adoro ensinar também.
16. Acho que vou acabar sendo professora um dia.
17. Gosto muito de ler, mas não consigo ler um livro de cada vez. Depende do meu humor (por isso preciso de muitos marcadores de livros).
18. Tenho que ler o livro até o final, mesmo que isso demore anos.
19. Sou casada com um muçulmano.
20. Não sou obrigada a me converter. Na verdade, se fosse obrigada, não casaria.
21. Aprendo a respeitar cada vez mais as diferenças todos os dias.
22. Um dia aprenderei árabe. Mais de 5 anos tentando e ainda sou iniciante.
23. Adoro viajar. Viajar sozinha ou acompanhada.
24. Passo pelo menos 80% do meu tempo pensando em comida
25. Pra finalizar, sinto saudades, muitas saudades todos os dias.
Fiz essa lista devido a um desafio da Irene, resolvi postar aqui também.

domingo, 5 de junho de 2016

Mês do Ramadã

Já passei vários Ramadãs (Post anterior 1   Post 2) pelo oriente médio, mas desta vez será diferente. Não vou estar trabalhando (pedi demissão do meu trabalho, vou compor um post sobre isso com calma depois) e vou passar o mês inteiro em Bahrain.

Minha mãe vem me visitar na última semana do Ramadã e passar o festival Eid al Fitr com a gente.

Estive bastante tempo sem escrever no blog, mas vou tentar escrever sobre esse mês tão especial para os muçulmanos.

A casa da minha sogra já está toda enfeitada com bandeirinhas, lampadinhas, velas, etc. Ela preparou uma mesinha tipo piquenique do lado de fora com toldo e ventilador (daqueles que solta gotículas d'água para amenizar o calor).

Ganhei vários vestidos típicos das irmãs do Ahmed e outros comprei numa feira uns meses atrás. Vou usar nos jantares onde quebram o jejum todas as noites.

Decidi esse ano que vou entrar em jejum junto com meu marido e sua família. Acho que era uma experiência interessante para entrar no espírito do Ramadã.

Ramadã Kareem!

segunda-feira, 14 de março de 2016

No tribunal - Parte 5

Depois da primeira derrota em setembro, volto a trabalhar em Fahud preocupada. O que me preocupa na verdade é que somos 9 meninas em Fahud. E se esse cara não é considerado culpado. Vai passar a mensagem que violência contra as mulheres é impune. E ainda teremos um tarado à solta no deserto.
A única vantagem de estar em Fahud é que vou estar mais perto de Ibri (local da audiência) desta vez. Sem a necessidade de viajar tantas horas de avião e carro é possível chegar com até duas horas de antecedência. 
Meu chefe ficou limitado a me enviar a trabalhos de campos rápidos e próximos ou me deixar na base trabalhando até a data da audiência.

Desta vez chego na hora, sem atrasos. Converso com o advogado e ele me informa que terei um intérprete para traduzir as perguntas. E as possíveis perguntas que eles iriam fazer.
Como a audiência é pública, vários casos serão julgados e nesse dia o meu caso era o terceiro.
Quando chega a minha vez subo num desses degraus em frente ao juíz, o intérprete faz um juramento segurando o corão com a mão direita e começam as perguntas.

Respondo honestamente sobre as dúvidas geradas na semana anterior pelo acusado:
- Que não tinha como entrar no quarto por engano porque se localizam em regiões opostas do acampamento.
- O tempo estava limpo naquela noite do incidente, toda a nossa investigação foi feita ao ar livre em frente aos quartos e não havia nem ventania nem areia. Podemos entrar em contato com as testemunhas pra confirmar isso.
- Eu não ataquei, apenas me defendi quando fui atacada. E entregamos as fotos dos ferimentos e relatório médico.

É claro que não respondi do jeito que eu queria: a barra é a que eu uso pra trancar o quarto, não pra atacar pessoas que batem no meu quarto por engano. A não ser que decidam entrar sem ser convidadas e me atacar por exemplo.

Aí todos voltaram para o acusado que estava dentro das grades e com as mãos algemadas e fizeram as mesmas perguntas.
Ele não entende inglês nem árabe. Não tinham planejado um intérprete de bengali...

Próxima audiência em duas semanas.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A tão esperada audiência - Parte 4

O incidente foi no começo de junho, recebi a primeira ligação do tribunal no início de setembro.
A audiência estáva marcada para o dia 29 de setembro. Entrei em contato com o escritório de advocacia e recebi instruções que minha presença era muito importante. Pois houve casos em que a vítima não compareceu e o acusado saiu andando pela porta da frente.

Nesta data eu estaria em Bahrain, apenas uma hora de voo até o Omã. Planejei com antecedência, comprei a passagem pra chegar as três e meia da manhã em Muscat, reservei um motorista da empresa pra me levar de carro as seis da manhã até a cidade de Ibri. Uma viagem de um pouco menos de três horas, chegaria às 9 da manhã a tempo da audiência.

As três e meia um motorista do turno da noite me buscou no aeroporto e me levou pro hotel. Eu só teria que esperar o novo motorista..
Eu já estava esperando na portaria às seis, ligo pro motorista e ele não atende. Seis e dez, seis e vinte, seis e meia e nada. O motorista está atrasado e não atende o telefone. Chegou as seis e trinta e cinco. Eu já estava com o coração na mão.

Começamos a viagem e nada podia ser feito. Pelas leis e pelas políticas da empresa o carro não pode ir mais rápido que a velocidade permitida. Então só resta descansar um pouco. Tirei uma soneca.

Acordei as nove, ainda não chegamos. Quando vejo sinais do vilarejo, descubro que o motorista na verdade não sabe o caminho e se perde.
Ligo pro advogado que estava me esperando. Ele não atende, deve estar dentro do tribunal.
Quando chegamos depois das dez, já era tarde demais, o meu caso foi o primeiro.

Fiquei muito puta com o motorista, mas não quis descontar nada em cima dele e fui conversar com o advogado.
O advogado falou que o acusado mudou o discurso, diferente do depoimento, e disse que bateu na minha porta por engano, na verdade ele queria entrar no quarto dele. Que estava usando o turbante ao redor do rosto por causa da tempestade de areia e que EU o ataquei quando abri a porta com uma barra.

Ainda não querendo descontar no idiota do motorista. Respirei fundo e perguntei ao advogado o que poderíamos fazer. O advogado disse que ele conseguiria um direito de resposta pra mim em duas semanas. Ele sugeriu imprimir e mostrar as fotos, relatório médico dos ferimentos, relatório do tempo naquele dia e uma planta do acampamento pra mostrar a distância e localização dos quartos. Podemos tentar entrar em contato com as testemunhas também.

Mais duas semanas de agonia.

domingo, 6 de março de 2016

Boletins de Ocorrência - Parte 3

Chegamos na delegacia.
Não estava esperando tantos policiais nesse vilarejo no meio do nada no deserto, mas me surpreendi. Nos direcionaram para uma sala de interrogação e esperamos o delegado. Minha equipe ficou comigo o tempo todo como testemunha e intérprete.
Comecei a ditar meu depoimento em inglês pra meu intérprete, ele traduzia pra árabe e o delegado escrevia. O delegado fazia uma pergunta em árabe, meu intérprete traduzia pra inglês e eu respondia. E assim por diante. Demoramos horas pra terminar a história. Eu ainda em estado de choque, tive que contar a história umas 10 vezes em menos de 24 horas.
Anotou a minha parte da história e a das testemunhas. Registrou nossos nomes, tirou cópia das nossas identidades e assinei com impressão digital.

O acusado foi chamado a essa sala mas não admitiu nada. Disse que nunca tinha me visto antes e não sabia de nada. Os funcionários da cozinha deram um depoimento que ele estava dormindo naquele horário e não tinha saído do quarto. No depoimento eles escreveram que todos os cozinheiros entraram no quarto juntos depois de preparar a última leva de pães na cozinha. 
Eu pensei como ia ser difícil continuar, a minha palavra contra a deles. Aí eu me pergunto, se não era esse homem, outro alguém entrou no meu quarto e me deixou com hematomas. Não é melhor investigar?

Depois de muitas e muitas horas na delegacia, fomos enviados a uma clínica pra fazer o exame corpo de delito. Fizeram exame de sangue, amostras de debaixo da unha, amostras dos arranhões e um relatório detalhando meus ferimentos.
Que azar ter o péssimo hábito de roer unhas. Se eu soubesse que ter unhas grandes e arranhar o suspeito poderia ser um grande aliado na resolução de um crime...

Da clínica fomos até a promotoria, muitos representantes das duas empresas já estavam presentes lá, do acusado e da minha. Mais uma vez tivemos que dar nossos depoimentos, desta vez tive uma intérprete mulher. Ela leu tudo o que estava escrito em árabe pra mim e tive que responder perguntas bem específicas e detalhadas sobre o episódio (qual a mão, direita ou esquerda, que ele usou pra abrir a porta do quarto, pra te tocar e assim vai).
Eu entendo perfeitamente porque alguém pararia por aqui ou até antes dessa dor de cabeça. 
E vontade de explodir quando perguntam coisas como: se eu tinha um relacionamento com ele, se eu tinha bebido, se eu sou uma moça de "família" e se eu me visto "decentemente". Dizem que essas perguntas fazem parte de qualquer investigação, mas eu acho que é uma tentativa de colocar a culpa na vítima.
Pois é claro que se eu tivesse um relacionamento com ele, tivesse bebido e usando shortinho, nem precisa de julgamento, não é? 

Agora é só esperar a primeira audiência.

sábado, 5 de março de 2016

A investigação - Parte 2

Dentro do quarto tentando recuperar meu fôlego, percebo que estou um pouco machucada.
Minha boca está cortada, meu olho direito machucado, roxos nos braços, joelhos e pernas, sangue pisado e um corte no dedão do pé.
Ligo para meu marido em Bahrain e pro meu chefe em Fahud, tento explicar a história aos soluços. A solução era encontrar alguém nesse acampamento para me ajudar nesse caso, ligamos pro supervisor.

Uma hora depois ouço batidas na porta. Grito "quem é" e ouço uma voz familiar dizendo "é o Fulano da sua equipe junto com o supervisor".

Abro a porta e começo a cuspir a história no meio de soluços. Não sei de onde me veio esse palpite tão específico: "acho que foi alguém da equipe da cozinha, estava vestindo uma camisa branca e uma calça comprida, com um turbante quadriculado enrolado no rosto". Algo naqueles olhos enrolados no turbante me lembrou um olhar estranho que recebi na hora do almoço no refeitório. Acho que nós mulheres sabemos quando cachorros nos olham como um frango de padaria. Me lembrei que o sotaque dele era de um estrangeiro falando árabe. Aqui todos os funcionários dos refeitórios e limpeza são sempre estrangeiros.

Chamaram a polícia e ao mesmo tempo decidiram acordar toda a equipe da cozinha. Abriram a porta do quarto deles e pediram pra todos os três cozinheiros saírem. Dois saíram com a roupa que estavam dormindo. Um terceiro homem trocou uma camisa branca por uma camisa vermelha antes de sair do quarto. Suspeitei de algo.

Quando eles saíram logo vi que os dois primeiros não batiam com a imagem que eu tinha. Um era muito magrelo e outro barrigudo. O terceiro homem, no entanto, batia com a imagem que eu tinha em mente.
Mas o chefe da equipe da cozinha falou: "porque você acha que é alguém da minha equipe e não omanis?" Omanis, como são chamamos quem nasce no Oman. Eu disse que o sotaque não era de árabes (sou casada com um árabe, sei diferenciar oras). Mas o supervisor logo disse: "não seja por isso, vamos acordar todas as pessoas desse acampamento para ela identificar o suspeito".

Com isso acordaram todos as pessoas (por volta de 30) que estavam passando aquela noite no acampamento, inclusive os omanis, e os colocaram na minha frente. Fui falando que eles não batiam com a descrição, alto demais, baixo demais, preto demais, branco demais, etc. Nenhum deles se aproximava da minha memória tanto quanto aquele terceiro homem. Foram dispensados e voltaram aos seus quartos.

Lembrei do turbante e minha equipe entrou no quarto dos cozinheiros, pegaram dois turbantes e colocaram na minha frente. Escolhi um que era cinza e vermelho com quadradinhos pois era a imagem que eu tinha em mente. Adivinha a quem pertencia. Àquele terceiro homem.

Pedi pra todos os presentes incluindo minha equipe e supervisor a me perguntarem se eu falava árabe em árabe não em inglês, pois era a única frase que eu ouvi antes de ser atacada. A minha idéia era tentar identificar o suspeito pelo sotaque e timbre da voz.
Alinhados na minha frente, todos repetiam  um de cada vez "tatakalam alarabía" exceto quando chegou a vez daquele terceiro homem. Que se fez de bobo e perguntou na língua dele. Minha equipe estava começando a ficar brava, pois todos já estavam suspeitando desse cara. Foram até ele e pediram pra ele repetir "tatakalam alarabía". Naquele momento eu reconheci a voz e como cheguei mais perto reconheci o mal cheiro

Minha equipe estava analisando o cara e percebeu que ele tinha uma tatuagem no braço. Não, eu não lembro de tatuagem. "Como você não viu essa tatuagem?" E começaram a duvidar de mim. Mas todas as outras pistas já bastavam pra mim. A troca de camisa, o turbante quadriculado, a voz, a recusa de repetir a frase, o cheiro. No momento em que procuravam por marcas de mordidas na mão dele, acharam um pequeno arranhão muito recente no braço dele. Isso foi a prova que precisávamos pra levá-lo pra delegacia.

A polícia chegou.