segunda-feira, 14 de março de 2016

No tribunal - Parte 5

Depois da primeira derrota em setembro, volto a trabalhar em Fahud preocupada. O que me preocupa na verdade é que somos 9 meninas em Fahud. E se esse cara não é considerado culpado. Vai passar a mensagem que violência contra as mulheres é impune. E ainda teremos um tarado à solta no deserto.
A única vantagem de estar em Fahud é que vou estar mais perto de Ibri (local da audiência) desta vez. Sem a necessidade de viajar tantas horas de avião e carro é possível chegar com até duas horas de antecedência. 
Meu chefe ficou limitado a me enviar a trabalhos de campos rápidos e próximos ou me deixar na base trabalhando até a data da audiência.

Desta vez chego na hora, sem atrasos. Converso com o advogado e ele me informa que terei um intérprete para traduzir as perguntas. E as possíveis perguntas que eles iriam fazer.
Como a audiência é pública, vários casos serão julgados e nesse dia o meu caso era o terceiro.
Quando chega a minha vez subo num desses degraus em frente ao juíz, o intérprete faz um juramento segurando o corão com a mão direita e começam as perguntas.

Respondo honestamente sobre as dúvidas geradas na semana anterior pelo acusado:
- Que não tinha como entrar no quarto por engano porque se localizam em regiões opostas do acampamento.
- O tempo estava limpo naquela noite do incidente, toda a nossa investigação foi feita ao ar livre em frente aos quartos e não havia nem ventania nem areia. Podemos entrar em contato com as testemunhas pra confirmar isso.
- Eu não ataquei, apenas me defendi quando fui atacada. E entregamos as fotos dos ferimentos e relatório médico.

É claro que não respondi do jeito que eu queria: a barra é a que eu uso pra trancar o quarto, não pra atacar pessoas que batem no meu quarto por engano. A não ser que decidam entrar sem ser convidadas e me atacar por exemplo.

Aí todos voltaram para o acusado que estava dentro das grades e com as mãos algemadas e fizeram as mesmas perguntas.
Ele não entende inglês nem árabe. Não tinham planejado um intérprete de bengali...

Próxima audiência em duas semanas.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A tão esperada audiência - Parte 4

O incidente foi no começo de junho, recebi a primeira ligação do tribunal no início de setembro.
A audiência estáva marcada para o dia 29 de setembro. Entrei em contato com o escritório de advocacia e recebi instruções que minha presença era muito importante. Pois houve casos em que a vítima não compareceu e o acusado saiu andando pela porta da frente.

Nesta data eu estaria em Bahrain, apenas uma hora de voo até o Omã. Planejei com antecedência, comprei a passagem pra chegar as três e meia da manhã em Muscat, reservei um motorista da empresa pra me levar de carro as seis da manhã até a cidade de Ibri. Uma viagem de um pouco menos de três horas, chegaria às 9 da manhã a tempo da audiência.

As três e meia um motorista do turno da noite me buscou no aeroporto e me levou pro hotel. Eu só teria que esperar o novo motorista..
Eu já estava esperando na portaria às seis, ligo pro motorista e ele não atende. Seis e dez, seis e vinte, seis e meia e nada. O motorista está atrasado e não atende o telefone. Chegou as seis e trinta e cinco. Eu já estava com o coração na mão.

Começamos a viagem e nada podia ser feito. Pelas leis e pelas políticas da empresa o carro não pode ir mais rápido que a velocidade permitida. Então só resta descansar um pouco. Tirei uma soneca.

Acordei as nove, ainda não chegamos. Quando vejo sinais do vilarejo, descubro que o motorista na verdade não sabe o caminho e se perde.
Ligo pro advogado que estava me esperando. Ele não atende, deve estar dentro do tribunal.
Quando chegamos depois das dez, já era tarde demais, o meu caso foi o primeiro.

Fiquei muito puta com o motorista, mas não quis descontar nada em cima dele e fui conversar com o advogado.
O advogado falou que o acusado mudou o discurso, diferente do depoimento, e disse que bateu na minha porta por engano, na verdade ele queria entrar no quarto dele. Que estava usando o turbante ao redor do rosto por causa da tempestade de areia e que EU o ataquei quando abri a porta com uma barra.

Ainda não querendo descontar no idiota do motorista. Respirei fundo e perguntei ao advogado o que poderíamos fazer. O advogado disse que ele conseguiria um direito de resposta pra mim em duas semanas. Ele sugeriu imprimir e mostrar as fotos, relatório médico dos ferimentos, relatório do tempo naquele dia e uma planta do acampamento pra mostrar a distância e localização dos quartos. Podemos tentar entrar em contato com as testemunhas também.

Mais duas semanas de agonia.

domingo, 6 de março de 2016

Boletins de Ocorrência - Parte 3

Chegamos na delegacia.
Não estava esperando tantos policiais nesse vilarejo no meio do nada no deserto, mas me surpreendi. Nos direcionaram para uma sala de interrogação e esperamos o delegado. Minha equipe ficou comigo o tempo todo como testemunha e intérprete.
Comecei a ditar meu depoimento em inglês pra meu intérprete, ele traduzia pra árabe e o delegado escrevia. O delegado fazia uma pergunta em árabe, meu intérprete traduzia pra inglês e eu respondia. E assim por diante. Demoramos horas pra terminar a história. Eu ainda em estado de choque, tive que contar a história umas 10 vezes em menos de 24 horas.
Anotou a minha parte da história e a das testemunhas. Registrou nossos nomes, tirou cópia das nossas identidades e assinei com impressão digital.

O acusado foi chamado a essa sala mas não admitiu nada. Disse que nunca tinha me visto antes e não sabia de nada. Os funcionários da cozinha deram um depoimento que ele estava dormindo naquele horário e não tinha saído do quarto. No depoimento eles escreveram que todos os cozinheiros entraram no quarto juntos depois de preparar a última leva de pães na cozinha. 
Eu pensei como ia ser difícil continuar, a minha palavra contra a deles. Aí eu me pergunto, se não era esse homem, outro alguém entrou no meu quarto e me deixou com hematomas. Não é melhor investigar?

Depois de muitas e muitas horas na delegacia, fomos enviados a uma clínica pra fazer o exame corpo de delito. Fizeram exame de sangue, amostras de debaixo da unha, amostras dos arranhões e um relatório detalhando meus ferimentos.
Que azar ter o péssimo hábito de roer unhas. Se eu soubesse que ter unhas grandes e arranhar o suspeito poderia ser um grande aliado na resolução de um crime...

Da clínica fomos até a promotoria, muitos representantes das duas empresas já estavam presentes lá, do acusado e da minha. Mais uma vez tivemos que dar nossos depoimentos, desta vez tive uma intérprete mulher. Ela leu tudo o que estava escrito em árabe pra mim e tive que responder perguntas bem específicas e detalhadas sobre o episódio (qual a mão, direita ou esquerda, que ele usou pra abrir a porta do quarto, pra te tocar e assim vai).
Eu entendo perfeitamente porque alguém pararia por aqui ou até antes dessa dor de cabeça. 
E vontade de explodir quando perguntam coisas como: se eu tinha um relacionamento com ele, se eu tinha bebido, se eu sou uma moça de "família" e se eu me visto "decentemente". Dizem que essas perguntas fazem parte de qualquer investigação, mas eu acho que é uma tentativa de colocar a culpa na vítima.
Pois é claro que se eu tivesse um relacionamento com ele, tivesse bebido e usando shortinho, nem precisa de julgamento, não é? 

Agora é só esperar a primeira audiência.

sábado, 5 de março de 2016

A investigação - Parte 2

Dentro do quarto tentando recuperar meu fôlego, percebo que estou um pouco machucada.
Minha boca está cortada, meu olho direito machucado, roxos nos braços, joelhos e pernas, sangue pisado e um corte no dedão do pé.
Ligo para meu marido em Bahrain e pro meu chefe em Fahud, tento explicar a história aos soluços. A solução era encontrar alguém nesse acampamento para me ajudar nesse caso, ligamos pro supervisor.

Uma hora depois ouço batidas na porta. Grito "quem é" e ouço uma voz familiar dizendo "é o Fulano da sua equipe junto com o supervisor".

Abro a porta e começo a cuspir a história no meio de soluços. Não sei de onde me veio esse palpite tão específico: "acho que foi alguém da equipe da cozinha, estava vestindo uma camisa branca e uma calça comprida, com um turbante quadriculado enrolado no rosto". Algo naqueles olhos enrolados no turbante me lembrou um olhar estranho que recebi na hora do almoço no refeitório. Acho que nós mulheres sabemos quando cachorros nos olham como um frango de padaria. Me lembrei que o sotaque dele era de um estrangeiro falando árabe. Aqui todos os funcionários dos refeitórios e limpeza são sempre estrangeiros.

Chamaram a polícia e ao mesmo tempo decidiram acordar toda a equipe da cozinha. Abriram a porta do quarto deles e pediram pra todos os três cozinheiros saírem. Dois saíram com a roupa que estavam dormindo. Um terceiro homem trocou uma camisa branca por uma camisa vermelha antes de sair do quarto. Suspeitei de algo.

Quando eles saíram logo vi que os dois primeiros não batiam com a imagem que eu tinha. Um era muito magrelo e outro barrigudo. O terceiro homem, no entanto, batia com a imagem que eu tinha em mente.
Mas o chefe da equipe da cozinha falou: "porque você acha que é alguém da minha equipe e não omanis?" Omanis, como são chamamos quem nasce no Oman. Eu disse que o sotaque não era de árabes (sou casada com um árabe, sei diferenciar oras). Mas o supervisor logo disse: "não seja por isso, vamos acordar todas as pessoas desse acampamento para ela identificar o suspeito".

Com isso acordaram todos as pessoas (por volta de 30) que estavam passando aquela noite no acampamento, inclusive os omanis, e os colocaram na minha frente. Fui falando que eles não batiam com a descrição, alto demais, baixo demais, preto demais, branco demais, etc. Nenhum deles se aproximava da minha memória tanto quanto aquele terceiro homem. Foram dispensados e voltaram aos seus quartos.

Lembrei do turbante e minha equipe entrou no quarto dos cozinheiros, pegaram dois turbantes e colocaram na minha frente. Escolhi um que era cinza e vermelho com quadradinhos pois era a imagem que eu tinha em mente. Adivinha a quem pertencia. Àquele terceiro homem.

Pedi pra todos os presentes incluindo minha equipe e supervisor a me perguntarem se eu falava árabe em árabe não em inglês, pois era a única frase que eu ouvi antes de ser atacada. A minha idéia era tentar identificar o suspeito pelo sotaque e timbre da voz.
Alinhados na minha frente, todos repetiam  um de cada vez "tatakalam alarabía" exceto quando chegou a vez daquele terceiro homem. Que se fez de bobo e perguntou na língua dele. Minha equipe estava começando a ficar brava, pois todos já estavam suspeitando desse cara. Foram até ele e pediram pra ele repetir "tatakalam alarabía". Naquele momento eu reconheci a voz e como cheguei mais perto reconheci o mal cheiro

Minha equipe estava analisando o cara e percebeu que ele tinha uma tatuagem no braço. Não, eu não lembro de tatuagem. "Como você não viu essa tatuagem?" E começaram a duvidar de mim. Mas todas as outras pistas já bastavam pra mim. A troca de camisa, o turbante quadriculado, a voz, a recusa de repetir a frase, o cheiro. No momento em que procuravam por marcas de mordidas na mão dele, acharam um pequeno arranhão muito recente no braço dele. Isso foi a prova que precisávamos pra levá-lo pra delegacia.

A polícia chegou.